O presidente do Palmeiras, Arnaldo Tirone, inovou em maio deste ano, quando anunciou que o marketing do clube seria composto por três diretores, em uma espécie de comitê gestor. Meses depois de montada a área, entretanto, o modelo ainda não emplacou, e um dos principais críticos do departamento é um dos próprios diretores.

Bruno Frizzo, apontado para ocupar o cargo de diretor ao lado de Rubens Reis e Marco Polo Del Nero Filho, está descontente. O marketing do clube, de acordo com a análise dele, carece de procedimentos. "Eu senti que estava perdendo tempo, porque fiz reuniões que já estavam acontecendo em paralelo", afirma o dirigente.

À Máquina do Esporte, o diretor de marketing contou que se sente isolado no departamento, sem ser consultado a respeito dos principais assuntos, e pensou em deixá-lo, mas foi convencido por Tirone a continuar. O ápice da insatisfação foi a demissão de Juan Brito, ex-gerente de marketing, que não teve a participação dele.

"Não sou diretor? Fiquei sabendo porque o Juan me ligou. Não houve planejamento. Entre a demissão e a colocação do novo gerente, houve um tempo muito grande. Se era para promover alguém da equipe, não precisaria demorar", argumenta, em referência à promoção de Francisco Gallucci Neto, já funcionário do clube, ao cargo.

Sobre as funções de cada membro do comitê gestor, Frizzo se opôs à divisão de tarefas por diretor. Com a ideia de que o departamento de marketing deveria ser subordinado à vice-presidência de administração, e desse modo agir de maneira uniforme, rechaçou assumir qualquer papel em específico. Hoje, está cada vez mais distante.

Confira, abaixo, a entrevista na íntegra:

Máquina do Esporte: Como você encontrou o departamento de marketing quando foi nomeado diretor?

Bruno Frizzo: No meu entendimento, o departamento de marketing deveria responder ao vice-presidente administrativo. Tem muita coisa definida no marketing que extrapola as decisões e precisa de uma estratégia de longo prazo. Quando um projeto determinado irá passar o tempo daquela gestão, entende-se que tem que ser decidido por uma diretoria executiva. Não é uma questão departamental. Senão acaba comprometendo uma receita do clube por cinco ou seis anos.

ME: O que deveria ser feito, nesse caso?

BF: Nessas situações, o vice-presidente administrativo deveria estar acima do marketing, para que ele leve as questões ao presidente. Eu propus isso, mas vi que o Tirone acompanha o marketing muito mais próximo, então ótimo. Se tem o presidente acompanhando, excelente.

ME: Você se ofereceu para ser diretor de marketing?

BF: Eu não tinha nem pleiteado, pedido ou me oferecido, antes ou depois da eleição, para fazer parte do departamento de marketing. Pensei que se em algum momento o presidente ou alguém da diretoria quisesse meu trabalho como colaborador, como fosse, seria alvo de uma conversa. Bater um papo, colocar as prioridades e isso poderia acontecer, mas eu não tinha uma expectativa. Já era de muita alegria saber que o clube estava nas mãos de gente que eu confiava. E ainda confio, em todos, em cada um deles.

ME: E como você chegou ao cargo?

BF: Não pensei em cargo, mas queria fazer isso. Depois de alguns meses algumas pessoas passaram a me tratar como diretor de marketing, chamar para fazer reunião. Eu me ausentei dessas reuniões, disse que não era nada dentro do clube. Não queria me impor forçosamente. Tenho muito cuidado com a política do Palmeiras, porque pode parecer que está forçando a barra para entrar. Eu só queria ajudar. Mas o presidente entendeu que eu tinha qualificações interessantes para o Palmeiras.

ME: Qual era a estrutura do marketing do Palmeiras quando você chegou?

BF: Cheguei ao departamento e o encontrei com um gerente e dois funcionários. Me assustou. É tudo o que a gente precisa para corresponder a todos os projetos? É suficiente? Numericamente, sem conhecer as pessoas. Comecei a ir, com calma, e tentar me inteirar do que estava acontecendo. É uma responsabilidade muito grande ser diretor. Além de ser Palmeiras, então respondo a 15 milhões de torcedores, era um departamento que até então não tinha agradado ao palmeirense, por não oferecer coisas diferenciadas, coisas que se espera do marketing. Pareceu muito mais um marketing de buscar patrocínios do que de proatividade, de tentar coisas que ninguém fez. Com a redução de equipe, parecia que eles estavam muito ocupados com as necessidades mais básicas do dia a dia.

ME: Como funciona um departamento com três diretores?

BF: O presidente nunca nos falou em três diretores. Ele falou em comitê de marketing, no qual ele tinha expectativa em gerar renovação na minha pessoa e na do Marco Polo [Del Nero Filho, também diretor de marketing], em termos de gente jovem, mesmo. O Rubinho [Rubens Reis, diretor de marketing], pela experiência que já tinha como diretor de comunicação, seria nosso diretor central, a figura maior. Ele é. Eu e o Marco estaríamos ali para dar apoio e participar dos projetos.

ME: Você se sentiu à vontade para assumir o cargo?

BF: Eu nunca tinha participado como diretor de nada. Cheguei a ser diretor-adjunto no departamento de comunicação do Rubinho, mas tinha sido quando era muito jovem e foi apenas um aprendizado. Eu estava tranquilo, apesar de muito animado e excitado em ajudar, porque não sinto que tenho experiência para ser diretor de marketing do Palmeiras. Tenho que aprender muito antes de pleitear esse cargo. Essa foi minha primeira abordagem no departamento.

ME: Como os funcionários anteriores reagiram a essa estrutura?

BF: Havia medo de que, como a oposição ganhou as eleições, haveria demissões. Aí nós conversamos com todos, demos estabilidade, embora eu não tivesse autoridade para dar tranquilidade ao cargo do Juan [Brito, ex-gerente de marketing]. Eu falei para eles ficarem tranquilos, para me mostrarem o dia a dia do departamento. Os três gostaram porque eu fui perguntar tudo. Sentei com o Chico [Francisco Gallucci Neto, atual gerente de marketing], perguntei tudo sobre o que ele fazia e tentei entender aonde estava chegando. Fui tentar aprender.

ME: Como foi o início do trabalho?

BF: Tínhamos reuniões de marketing e comunicação com os cinco diretores. Três de marketing e dois de comunicação. Debatendo coisas novas para a maioria de nós. Cheguei com expectativa de ser útil, de que o departamento fosse melhor estruturado, com procedimentos, e isso eu não encontrei. Encontrei três funcionários que são batalhadores, sim, com respectivas qualificações, mas que não tinham procedimento. Senti muita falta disso.

ME: Que tipo de procedimento você gostaria de ter?

BF: Entrou no aspecto de: dividiremos tarefas? Fico como supervisor de um projeto? Mas o procedimento qual é? Eu faço da minha maneira, e você da sua? Não acredito que isso seja o melhor para o clube. O marketing precisa ter um alinhamento, respostas lineares, porque depois alguém pode falar com outro diretor, e ele dar respostas diferentes.

ME: Como foi seu comportamento no início?

BF: Aconteceu reuniões em que as pessoas procuravam por mim, e eu era o máximo solítico possível, achando que tinha que receber todo mundo. Achei que iríamos emitir relatórios. Tomei um procedimento de não fazer nenhuma reunião fora do Palmeiras. Sempre no Palmeiras, e de porta aberta. Comecei a sentir a falta de procedimentos. Senti que estava perdendo tempo. Fiz reuniões, e situações já estavam acontecendo em paralelo. A falta de comunicação me chateou bastante em um primeiro momento.

ME: Você sentiu rejeição pelo fato de ser filho do vice-presidente de futebol [Roberto Frizzo]?

BF: Comecei a notar que teria de provar que não estou lá por causa do meu pai, mas porque alguém viu alguma qualificação em mim. Foi muito dito na época, quando anunciaram a diretoria.

ME: Qual foi a falha, na sua visão?

BF: Eu não via problema na maneira como a diretoria foi montada. A falha era na estruturação do departamento, não da diretoria. Minha frustração no dia a dia foi crescendo. Minha indisposição foi crescendo. Tive um ápice de descontentamento, principalmente depois que mandaram embora o Juan. Para não dizer desnecessária, foi muito mal conduzida.

ME: Alguém te consultou antes da demissão do Juan?

BF: Comigo, ninguém conversou. Não sou diretor? Fiquei sabendo porque o Juan me ligou. Confio no meu presidente, assim como ele confiou em mim e achou legal me colocar no marketing. À medida que vi coisas que deveriam ser feitas de outra maneira, fui comunicando, sem criar lados. Tentei me relacionar com todo mundo. Meu único sonho era ser produtivo para o departamento. Para mim, quando dispensam o Juan, é perda muito grande para o departamento. Não houve planejamento de substituição. Se parar para pensar, entre a demissão e a colocação do novo gerente, houve um tempo muito grande. Se era para promover alguém da equipe, não precisaria demorar tanto tempo sem gerente, sem ninguém definindo nada.

ME: Houve a divisão de tarefas entre diretores?

BF: A divisão de tarefas chegou a ser cogitada, mas fui contra. Se havia uma equipe profissional dentro do clube, o departamento deveria tocar. Como fui contra à divisão de tarefas, não corroborei com isso, não brinquei dessa brincadeira. Não só não entrava, como me pronunciei com total tranquilidade.

ME: E o que houve em seguida?

BF: A vida seguiu, independentemente de eu ter me pronunciado, inclusive sem mim. Como foi a demissão do Juan. Ninguém perguntou nem minha opinião. Em determinado me senti frustrado, me sentia como se fosse um estranho à cultura daquele lugar. Eu não tinha experiência de clubes, ao contrário do Rubinho e do meu pai, para saber como influenciar e melhorar.

ME: Qual seu maior receio?

BF: Meu maior medo é o seguinte: não tenho duas chances. Com relação aos outros diretores, o único que depende dessa atividade, que está tentando criar uma empresa para fazer um trabalho nesse sentido, sou eu. O pessoal trabalha com outras coisas. Se a divisão de tarefas compromete todo o departamento, como eu faço? Uma pessoa que não é de marketing compromete todo o trabalho, e eu saio daqui como o prejudicado no setor? Amo marketing esportivo. Amo o Palmeiras. Mas não vou deixar uma coisa prejudicar a outra.

ME: Você já pensou em sair da diretoria?

BF: Já pensei em sair diversas vezes. Além do agravante que, imagine se alguém tentar prejudicar meu pai, que não tem nenhuma vírgula para se dizer em termos de honestidade, eu não tenho segurança. Eu era um dos membros de um comitê que eu não era lider. As grandes decisões eram tomadas sem nem me consultar a respeito. Fiquei preocupado porque alguém poderia fazer uma decisão prejudicial ao clube, e minha carreira estaria comprometida. Isso me deixou assustadíssimo.

ME: O que você fez?

BF: Fui conversar com meu presidente [Tirone], coloquei minhas preocupações, e ele me pediu para que ficasse, dizendo que eu tinha uma futura carreira no clube nos próximos anos. Que tinha estudado bastante e tinha que aproveitar essa oportunidade para aprender, para que amanhã eu fosse cada vez mais preparado para ajudar o clube. Essas palavras dele me sensibilizaram.

ME: O que tem de mudar no marketing para corrigir o departamento, na sua opinião?

BF: É uma pergunta bem difícil. E vou tentar simplificar em duas palavras: planejamento estratégico. Considerando como se não tivesse um departamento de marketing e fosse estabelecer um. Fazer um trabalho acadêmico, teórico, um trabalho que quando você termina de ler tudo está encaixado. Fui estudar formação de outros clubes, e você vê que não existe padrão. Precisa de um planejamento estratégico de fato.

ME: A Valéria [Rocha, diretora executiva] realizou essa tarefa, não?

BF: Tomara que ela consiga fazer isso no departamento. É uma pessoa muito bacana. Pelo contato que tive no começo, acredito nela. Confio, acredito, e é um sopro de profissionalização. O departamento deveria ser blindado, como é o jurídico, como é o financeiro e o futebol.

ME: Como está sua situação hoje?

BF: Para mim, aconteceu um ajuste de expectativas. Eu queria ser útil, e hoje acho que a maneira que posso ser útil deve ser diferente. Acredito muito no papel da Valéria nesse processo, muito, e os últimos dias, com todas as dificuldades,  reservam anúncios muito bons do marketing. Coisas que têm tudo para ser motivo de orgulho de torcedores. Se a execução for à altura do que foi planejado, o torcedor terá novidades muito boas.


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