Após Brasil x México, no calor da eliminação, o técnico Juan Carlos Osorio disse que Neymar era “péssimo exemplo para o futebol, um jogo para homens”. Sem entrar no mérito do apanha-ou-simula, meu artigo abrange um tema maior: por que os estádios desta Copa são ambientes tão masculinos e adultos?

O clima nos jogos tem sido cortês, e aficionados de ambos os lados convivem em harmonia mesmo em jogos com nervos à flor da pele. O protocolo da Fifa faz com que jogadores entrem em campo acompanhados de crianças, ativação patrocinada pelo McDonald’s há algumas Copas. A maioria dos jogos são assistidos com o público sentado, e a visibilidade do gramado é excelente mesmo para quem tenha pouco mais de um metro de altura. Se tudo isso foi feito para fazer com que a experiência de assistir a um jogo por crianças fosse incrível, por que são tão poucos os meninos e meninas nos estádios?

Foto: David Pinski

Tenho algumas suspeitas:

1. Os ingressos são caros e crianças pagam valor integral. Para o jogo Brasil x Bélgica, os ingressos de arquibancada com maior disponibilidade (categoria 1) saem R$ 1.500 por pessoa.

2. Chegar ao estádio é cansativo até para adultos. É disponibilizado transporte público gratuito para portadores de ingressos, mas os estádios são distantes e os pontos de parada do transporte público ficam entre 1 a 5 km de caminhada sob um sol escaldante. 

3. Além do jogo, são poucos atrativos para as crianças. As Fan Fests são ambientes pensados nos adultos. Diferentemente da Copa de 2014 no Brasil, as áreas para ativações dos patrocinadores nos estádios foi pouco aproveitada pelas marcas. Chutes a gol, entrega de brindes, estandes para fotos e outras brincadeiras foram “esquecidas” na Rússia. 

4. Culturalmente, futebol na Rússia é um esporte prioritariamente dos homens. As crianças e mulheres aos poucos têm aumentado seu interesse, mas ainda é pouco. 

5. Trazer crianças para a Rússia não é uma tarefa fácil. As distâncias são continentais, a língua é difícil, a comida é diferente, os preços nas grandes cidades são altos, principalmente para hospedagens em hotéis. O esquema de dormir em albergue, muitas horas nos deslocamentos, cafés da manhã incertos e comida diferente com horários heterodoxos deixam marmanjos debilitados, quanto mais as crianças.

Uma pena que os futuros fãs não tenham uma forma pensada para curtirem jogos que façam do futebol uma paixão para toda a vida. Não ver isso é uma enorme miopia.

* David Pinski é louco por futebol há 42 anos, marketeiro há 21 e está na sua 2ª Copa do Mundo


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