O Campeonato Brasileiro com maior média de público das últimas décadas será também aquele com mais jogos com torcida única. A relação muito indireta entre os dois dados só comprova que a medida é um fato estranho em um futebol que, nos últimos anos, aprendeu a respeitar mais o torcedor.

No cenário de arenas modernas, o veto à presença de torcedores não faz sentido, especialmente porque o principal motivo é a segurança. Em muitos casos, porém, isso não pôde ser aplicado; foi a pura ânsia de ter mais cadeiras disponíveis e menos gastos com segurança. A essência do futebol, a disputa sadia entre as torcidas, ficou em segundo plano muitas vezes por motivos torpes, difíceis de serem entendidos.

Nesta semana, houve uma explosão de exemplos. No próximo domingo (8), o Vasco, a fim de bater o recorde de público na temporada do futebol, jogará no Maracanã e combinou com a Chapecoense de abrir mão do setor de visitantes. Nesta quinta-feira (5), o Flamengo se desentendeu publicamente com o Avaí porque afirmou que o time catarinense não indicou a compra de suas entradas e, portanto, não abriria o estádio para os torcedores visitantes.

E ainda houve dois estranhos casos em que a violência foi colocada em evidência, mesmo sem nenhum histórico ou indício de que o encontro de torcidas seria problemático. Foi assim com Palmeiras x Flamengo, em São Paulo, sem flamenguistas. E poderá ser assim com Cruzeiro x Palmeiras, no Mineirão, no próximo domingo (8). O time mineiro tentará permanecer na Série A sem o incômodo de torcedores rivais, muito diferente do que fez o Ceará, concorrente à vaga, na partida contra o Corinthians nesta quarta-feira (4).

Em São Paulo, a Polícia Militar alega que a imposição de torcida única diminuiu os casos de violência e aumentou a média de público. Evidentemente, os clássicos são casos à parte, em que o medo afasta os torcedores, mesmo se considerarmos que os problemas mais graves acontecem bem longe das arenas. Não é o ideal, não parece necessário e teria solução, mas pelo menos tem algum fundo de coerência.

Em um panorama de crescimento do futebol, em faturamento e público, o Brasil não pode se levar por uma medida tão na contramão dos principais mercados do mundo e que, mais importante, está distante daquilo que fez o esporte algo tão apaixonante no país, tão diferente de qualquer outra nação. Pode-se inventar cada vez mais desculpas para fechar os estádios ou pode-se criar uma organização eficiente para que todos sejam bem-vindos às novas arenas. Está mais do que claro qual é a melhor opção.


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