As últimas semanas foram recheadas de notícias que abalam a fé de quem aposta no processo de profissionalização do futebol brasileiro. Mesmo com a notória evolução no mercado, alguns dos grandes clubes do país parecem manter aquela mentalidade amadora de outros tempos.

No último fim de semana, após o Cruzeiro ser goleado pelo Grêmio no Campeonato Brasileiro, o diretor de futebol do time, Marcelo Djian, confirmou que há atrasos de salário dos jogadores. Na última semana, no Rio de Janeiro, os atletas do Botafogo resolveram boicotar a exposição de patrocinadores em entrevistas coletivas, como forma de protesto à ausência do contracheque nos últimos meses.

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Os dois casos dão sequência ao lamentável W.O. na Série B do Campeonato Brasileiro, no último mês, quando o Figueirense, que ano passado apostou em um modelo de clube-empresa, sofreu com a revolta dos jogadores já cansados de esperar pelos pagamentos em dia.

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O Cruzeiro, para pegar um único exemplo de time com problemas, teve o faturamento triplicado na última década, mesmo se forem considerados os ajustes de inflação. Portanto, é realmente difícil entender como a equipe pode estar com sérios problemas financeiros. A conclusão é pouco animadora: uma parte considerável dos dirigentes nacionais é incapaz de fazer uma conta de padeiro. Gastar muito, e mal, parece intrínseco à categoria.

Fica complicado pensar em uma relação mais próxima ao mercado e aos consumidores, um processo mais complexo, quando nem o básico é feito. O futebol brasileiro ainda vive na sombra do estilo Cruzeiro, bem exemplificado pelo meia Thiago Neves: é o mesmo jogador do Fluminense do final da década passada, mas agora veterano e com salário altíssimo. O produto não andou, e a conta não fecha.

Quando o futebol brasileiro passou a ganhar muito mais, foram poucas as equipes que fizeram um uso racional dessa nova verba, com abatimento de velhas dívidas e uma nova política de investir no esporte. As recentes ferramentas associadas ao profissionalismo foram impostas, mas o modo amador de pensar permanece.

Nos últimos anos, talvez a equipe que melhor tenha feito a lição de casa tenha sido o Flamengo. Não por acaso, é o time que mais fatura e que, naturalmente, tem dominado o futebol brasileiro nesta temporada, mesmo após um período de limitações em campo. Quem sabe, assim, a equipe não sirva de exemplo para a próxima década.


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