Assim como há dez anos foi um dos atores principais na morte do Clube dos 13, o Flamengo caminha para detonar o pino da granada que deve implodir os Estaduais Brasil adentro. Só que, diferentemente de uma década atrás, quando a política venceu o argumento técnico, agora é exatamente o debate técnico que deve fazer com que se alterem as relações entre clubes e mídia.

A proposta do Flamengo pelo Cariocão parece um acinte quando vista no cenário atual do futebol. O clube, em posição merecidamente confortável, quer muito mais da TV do que ganha qualquer outro participante do torneio. A Globo, para conseguir manter a alta lucratividade no negócio dos Estaduais, não pretende pagar tanto ao clube e iniciar um efeito cascata. Para isso, usa o bom argumento de causar maior desequilíbrio financeiro entre os clubes ao aprofundar as diferenças e ceder aos pedidos do Flamengo na negociação.

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Caberia à Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) se posicionar contra a posição flamenguista e exigir que todos ganhassem mais pela competição. Mas, para isso, seria preciso que existissem duas condições. A primeira, o mínimo de conhecimento técnico da Ferj para expor seus argumentos. A segunda, uma situação de negociação que a permitisse fazer isso. Essa segunda condição, no entanto, acabou quando a entidade assinou por oito anos com a Globo e permitiu que a emissora negociasse sozinha com os grandes do estado, acabando com qualquer status que ela pudesse ter.

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O duelo entre Flamengo e Globo, dessa vez, escancara tudo que está errado no futebol do Brasil. As entidades organizadoras do campeonato não atuam como tal. Os clubes são totalmente despreparados para assumirem esse controle e negociarem de forma coletiva seus interesses comuns. Isso tudo faz a mídia ter um poder muito maior do que deveria, pois gera a cultura do "cada um por si", que desequilibra todo o sistema. O Flamengo, com méritos, se organizou e encara a Globo. Hoje, porém, está sozinho na disputa. E não vai conseguir ganhar porque simplesmente nenhum dos seus "sócios" no Estadual do Rio está em condições de se unir a ele nesse debate.

Do jeito que está, a Globo faz o papel de "portadora de bom senso" em um futebol que se acostumou a ser extremamente individualista dentro e fora de campo. A briga de hoje do Flamengo abre os olhos dos outros grandes para o quanto de receita a mídia ganha em um torneio por completa incompetência dos times. Mas, de novo, a briga solitária não vai acrescentar nada, a não ser poucos milhões. Para um time só.


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