A manutenção do calendário dos Jogos Olímpicos, reforçada na última terça-feira (17) pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), gerou uma onda de protestos de atletas e especialistas. A insistência do COI em dizer que, em quatro meses, tudo estará normalizado no mundo e que não há razão para mudar o cronograma previamente estabelecido, deixou de ser teimosia para virar insanidade.

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Sim, sem dúvida que em quatro meses já teremos saído do estado de pandemia do coronavírus. Mas em qual estado estaremos daqui a quatro meses?

É isso que faz da manutenção dos Jogos em seu cronograma original uma tremenda irresponsabilidade egoísta do COI, e não uma simples teimosia. A Europa e os Estados Unidos pararam, a América do Sul começou a estacionar. Como os atletas vão treinar? De que forma o torcedor vai se programar para ir ao evento? E quais patrocinadores terão condições de saber qual o orçamento para promover os Jogos?

Sim, se todos fizermos nossas partes teremos um mundo mais saudável daqui a quatro meses. Mas quais os legados desse período de reclusão que temos vivido? Esse cenário gera uma incerteza que é muito maior do que a condição física dos atletas e o tempo hábil de se montar um evento de alto grau de complexidade.

Existe toda a questão financeira de prejuízo a emissoras, patrocinadores, COI e Japão com relação a um adiamento ou até mesmo a um cancelamento dos Jogos.

Para a mídia, o problema está claramente resolvido. A previsão é de que os dois meses de ápice das competições esportivas que viveríamos agora em abril e maio sejam postergados para julho e agosto, exatamente o período em que ocorrerão os Jogos.

Aos patrocinadores, postergar o evento não parece tão ruim assim, já que a economia precisará de um fôlego para retomada após os prováveis três meses de paralisação. O fato dos Jogos serem ainda num período de recuperação econômica pode ser prematuro.

Sobram Japão e COI nessa conta. Para os anfitriões do evento, que começam agora a retomar as atividades após quase dois meses, a vida em julho já deverá ter se normalizado, então não há motivo para mudar as datas. Para o Comitê Olímpico Internacional, manter o cronograma significa não sofrer qualquer abalo financeiro como todo o restante do esporte.

Esse egoísmo pode criar concorrentes inesperados para os Jogos Olímpicos. Basquete, futebol e vôlei deverão estar, em julho, terminando suas temporadas. O que o torcedor vai querer acompanhar? Pelo visto o COI não percebeu o mundo em que vive.


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