O Bahia mostrou nesta semana algo que toda grande empresa já sabe: o discurso socialmente responsável pode cair rapidamente com alguma falha em sua gestão. Mesmo se esse equívoco for feito por agentes distantes ou independentes, com ação de um executivo ou de empresas terceirizadas.

Nesta terça-feira (28), o UOL publicou que o clube foi denunciado por "trabalho excessivo e horas extras não respeitadas". A ação, que se refere aos atendentes do programa de sócio-torcedor, foi feita há um ano, e o clube afirmou oficialmente que irá averiguar a situação para fazer as possíveis correções nas relações de trabalho.

O vazamento da denúncia é um choque no clube brasileiro que mais fez questão de estar no lado certo da moeda nos últimos anos. Mesmo com a possibilidade de crise, o Bahia tem se posicionado como a mais progressista das equipes nacionais. O nobre discurso, no entanto, tem que estar enraizado em toda a entidade para ser mais efetivo. A fala contra o racismo perde impacto diante de abusos trabalhistas.

Curiosamente, o caso do Bahia aconteceu no mesmo dia em que o clube teve um posicionamento muito forte contra uma polêmica iniciada em São Paulo, no Corinthians. O time deu força à numeração "24", normalmente rechaçada no futebol pela relação com o "veado" no "jogo do bicho". Com o discurso de "xô, preconceito", a agremiação deu voz contra a homofobia no futebol, algo raro no segmento.

No começo deste ano, a presença do número "24" ficou em evidência graças a um comentário do diretor de futebol do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, na apresentação do colombiano Cantillo. O dirigente fez piada com o fato de o atleta ter aberto mão da numeração usada em seus ex-clubes. "24 aqui não", afirmou.

Menos enfático que o Bahia, o Corinthians também adota um discurso progressista em sua comunicação, sempre apoiado em lemas como "time do povo" e "democracia corintiana". Em 2019, o clube usou as redes sociais para mexer no vespeiro da homofobia, um assunto bizarramente delicado no futebol. Pelo dia internacional contra a discriminação ao público LGBT+, a equipe colocou o arco-íris nas redes.

Mais uma vez, o discurso caiu por terra com ações reais. Talvez o posicionamento oficial não faça parte da cultura da empresa, o que atrapalha qualquer plano de comunicação e de gestão de marca. Bahia, Corinthians e outros clubes precisam continuar com suas avançadas posições sobre o mundo, mas não pode ser da boca para fora.


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