Depois de 17 mil mortes ao redor do mundo, número que lamentavelmente está muito distante de se estabilizar, o Comitê Olímpico Internacional (COI) achou razoável anunciar o adiamento dos Jogos Olímpicos de 2020. A insistência da entidade e do governo japonês em minimizar a crise e manter as datas originais do evento entrará para a lista das maiores vergonhas do maior evento esportivo do planeta.

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A situação é ainda pior porque a decisão saiu apenas após algumas duras decisões tomadas por agentes do esporte. As delegações de Austrália e Canadá já haviam declarado que não participariam do evento se ele não fosse adiado. Os dois países endossaram uma pressão que já era exercida pela delegação dos Estados Unidos e até mesmo pela Federação Internacional de Atletismo (World Athletics). A impressão é que o COI tomou a decisão na base da chantagem internacional, e não por ter o mínimo de sensibilidade com o drama do coronavírus.

Os Jogos Olímpicos tinham a obrigação de mostrar o contrário. Não há contrassenso maior do que o esporte forçar algo que claramente não é saudável. Praticamente todas as modalidades foram interrompidas pelo coronavírus, e a falta de tato do COI com seus representantes foi um desrespeito difícil de ser justificado publicamente.

Além disso, os Jogos representam a aspiração de milhões de pessoas pelo mundo, algo que o torna tão valioso para mídia e patrocinadores. Logo, existe uma credibilidade no que eles expressam, seja pela simbologia da sua manutenção ou pelas palavras diretas dos seus dirigentes. Quando fez pouco caso do coronavírus, o COI se juntou aos charlatões irresponsáveis que menosprezaram o poder destruidor do vírus, algo visto nas vozes de alguns dos principais políticos do Brasil e do mundo.

Caso tivesse cravado a gravidade do caso logo de início, os Jogos Olímpicos teriam uma função social única, ao demonstrar para a comunidade global que medidas extremas são necessárias para salvar vidas em um caso de pandemia. O COI perdeu a oportunidade de conscientizar as pessoas sobre aquela que deverá ser a maior crise do Século XXI. As razões do comitê são imperdoáveis e muito difíceis de entender.

A hipótese mais óbvia é que interesses financeiros prevaleceram sobre o bom senso, mas, a considerar que o bem mais precioso dos Jogos Olímpicos é a imagem, a teoria se perde. Ao entrar no site do COI, pode-se ler a visão do órgão: "construir um mundo melhor por meio do esporte". Aparentemente, a frase tem se limitado a um slide de PowerPoint na hora de vender patrocínios para o evento.


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