Meus dois últimos livros de cabeceira dizem muito sobre a situação do esporte brasileiro. Engatei a leitura de “Um olho na bola, outro no cartola”, do hoje senador Romário, com “Confesso que perdi”, do jornalista Juca Kfouri.

Romário relata os percalços da última CPI que investigou o futebol. Já Kfouri escreve um livro de memórias sobre sua experiência no jornalismo esportivo desde a década de 1970. Ambos têm um tom de desencanto em relação à omissão dos atletas diante das questões da política e do esporte brasileiro.

Romário lembra o Bom Senso e sua falta de continuidade. Kfouri exalta exceções como a Democracia Corintiana, liderada pelo craque Sócrates.

Nos EUA, a situação é bem diversa. No último domingo, jogadores do Jacksonville Jaguar e do Baltimore Ravens se ajoelharam durante a execução do hino norte-americano. Era um protesto contra o presidente Donald Trump, que sugeriu que esse tipo de manifestação deveria ser punido com a demissão dos atletas.

A própria NFL divulgou nota em apoio a seus jogadores, seguida pela manifestação de donos de franquias, como Robert Kraft, do New England Patriots, um dos mais entusiastas eleitores de Trump.

Na NBA, o armador Stephen Curry, do Golden State Warriors, negou-se a participar da tradicional visita do campeão da liga à Casa Branca. Com sua descortesia habitual, o presidente norte-americano retirou o convite ao astro da equipe.

“Nós não defendemos basicamente o que o nosso presidente defende”, disse Curry, fazendo uma bela cesta de três pontos.

No Brasil, o governo federal anunciou corte de 87% no orçamento do Ministério do Esporte na semana passada, o que pode inviabilizar projetos como o bolsa-atleta. A notícia foi acompanhada por um silêncio ensurdecedor de toda a comunidade esportiva.

Neste momento, policiais brasileiros e franceses investigam a compra de votos que teria garantido a eleição do Rio como sede dos Jogos Olímpicos de 2016. Carlos Arthur Nuzman, presidente do COB, foi levado a depor. Na sua casa, os agentes encontraram quase meio milhão de reais embaixo do colchão. Com honrosas exceções, como a nadadora Joanna Maranhão, quase nenhum atleta abriu a boca para comentar o caso.

No futebol, a CBF é comandada por Marco Polo Del Nero, acusado de receber propina em várias investigações do FBI. Por conta disso, ao contrário do desbravador veneziano que inspirou seu nome, o cartola brasileiro é um ser que não viaja por medo de ser preso. Mesma estratégia é seguida pelo ex-presidente Ricardo Teixeira, hoje um recluso no Rio de Janeiro.

Quantos jogadores, com discurso de alcance global, se revoltaram contra essa situação? O mutismo do mundo da bola é constrangedor.


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